Carl Bernstein, um dos jornalistas do caso Watergate, deu palestra no Brasil. E nós fomos assistir.
Seria injusto dizer que Carl Bernstein e Bob Woodward foram responsáveis “apenas” pela denúncia do caso Watergate, que levou o presidente Richard Nixon à renúncia em 1974. Eles foram, acima de tudo, uma dupla de repórteres, então no Washington Post, que revigorou a imprensa independente e inaugurou uma escola de jornalistas investigativos, cujo modelo inspirou meios de comunicação em todo mundo. Até hoje, pode-se dizer.
Bernstein, hoje com 63 anos, comentarista político de TV e editor da revista Vanity Fair, veio ao Brasil para divulgar seu livro sobre Hillary Clinton e dar uma palestra a respeito de ética e política, a convite da Amcham. Eu e a Daniela fomos assisti-la e queremos compartilhar com vocês nossas impressões. A primeira coisa a dizer é que Bernstein é uma figura! A segunda coisa é relembrar um pouco do que foi o caso Watergate, considerado de certo modo um caso exemplar de corrupção. O mais incrível é que muitos fatores dessa história se encaixam direitinho no que andamos testemunhando aqui no Brasil.
Carl Bernstein abriu a palestra para cerca de 200 empresários contando que em dois dias de Brasil mudou completamente o que iria dizer. Desde que chegou, passou a fazer perguntas para descobrir tudo o que podia sobre o Brasil. “Achei presunçoso da minha parte falar de corrupção e ética num país que não conheço bem e, por isso, decidi falar sobre o que é a corrupção, responsável por solapar a democracia tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil”, afirmou.
Ele se mostrou surpreso da forte repercussão em vários países do caso Watergate, mesmo depois de 3 décadas, muito mais do que nos Estados Unidos. Ele acredita que o fato é um caso modelo de corrupção porque o sistema funcionou, ou seja, imprensa, sociedade e congresso cumpriram o seu papel. “Desde então nunca mais vimos o sistema funcionar tão bem na América e George Bush é um exemplo do fracasso do nosso sistema de lei. É a vitória da mentira”, afirmou.
Bernstein criticou a auto-importância que a mídia se dá, como se fosse capaz de determinar o destino dos seus países. Segundo ele, a responsabilidade da imprensa não é derrubar governos, mas falar sobre a verdade: a mídia é apenas parte de uma equação. “Nós não fizemos nada além do nosso trabalho de repórter”, explicou, referindo-se também a Woodward. “E o nosso trabalho plantou uma semente, que atraiu a atenção de um juiz corajoso, que provocou uma reação do sistema, e um senador corajoso, que cumpriu seu papel dentro do Congresso, com a abertura de um processo de impeachment contra o presidente.” Ele lembrou que Nixon foi reeleito em 1972, com vitória histórica e esmagadora, mesmo depois de serem publicados seus principais artigos sobre o caso no Washington Post.
Watergate, na sua análise, foi bem diferente do que ocorreu com a guerra do Iraque. Para que o sistema funcione, ele afirma que a imprensa tem que estar comprometida a obter a melhor versão possível da verdade e, com relação ao conflito, não foi cética o suficiente. Segundo ele, a imprensa falhou demais quando se decidia a participação dos Estados Unidos na guerra, mas já se recuperou e hoje os americanos estão cientes da corrupção e têm informações suficientes por causa da imprensa. “Por que o povo americano se colocou contra a guerra? Porque a imprensa fez seu papel. Mas por que o presidente continua mentindo, usando subterfúgios para manter homens no Iraque, dando continuidade a essa aventura desastrosa que serviu para enfraquecer a luta contra o terrorismo e não para combatê-lo, como foi alegado? Porque o sistema não está funcionando como aconteceu com o caso Watergate”, afirmou Bernstein.
Ele elogiou a imprensa no Brasil, que considerou autônoma e independente, fato imprescindível para a democracia. Percebeu que muitos brasileiros acham que há fracassos institucionais como a corrupção e a ineficiência do Congresso, mas explicou que é exatamente como ocorre nos Estados Unidos. “Um desastre”, classificou. “É a tirania do dinheiro na política nos EUA.” Segundo Bernstein, não é só propina, do tipo que o congressista usa para viajar com a família, comprar um bem, mas é o custo da campanha para um cargo público naquele país.
“Gasta-se em média 100 milhões de dólares para eleger um senador. É preciso levantar 50 mil dólares por dia, ao longo do mandato de seis anos, para custear a próxima campanha. Portanto, o que os políticos fazem é gastar o tempo buscando recursos para a reeleição e não para fazer o que têm que fazer. É uma corrupção sistêmica e institucional. Os políticos respondem aos seus financiadores, ao invés de responder ao cidadão”, afirmou.
Enfim, tudo a mesma coisa. Lá ou cá! Será isso um consolo?
Ele terminou lembrando que a democracia existe há 300 anos, mas que o Brasil passou a vivê-la somente de 1984 para cá e, desde então, muitas mudanças ocorreram, o que deve ser motivo de orgulho para os brasileiros.
O caso Watergate
Em 1972, durante a campanha eleitoral para presidente dos Estados Unidos, cinco pessoas foram presas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta na sede do comitê nacional do partido Democrata, do então candidato George MacGovern, opositor do presidente Richard Nixon, do partido Republicano, que concorria à reeleição.
Bernstein e Woodward começaram a investigar o caso, que ganhou o nome de Watergate devido ao edifício onde ficava o escritório do partido Democrata, e estabeleceram conexão com a Casa Branca. Foram auxiliados por um informante, conhecido por Garganta Profunda (Deep Throat), cuja identidade só foi revelada em 2005, pelo próprio, o segundo homem na hierarquia do FBI na época, W. Mark Felt.
Só em 1974, dois anos depois da reeleição de Nixon, que obteve votação histórica por ter sido esmagadora (ganhou em 49 dos 50 Estados), o presidente renunciou ao cargo. Historiadores e estudiosos sempre tentaram explicar o motivo que levou a ele e à sua equipe a se corromper de forma tão absurda. Alguns encontram explicação na sua própria personalidade. Parte dela messiânica, que fazia o presidente acreditar que era um homem do destino, um enviado para salvar a pátria de qualquer ameaça e, para isso, usando qualquer meio legal ou ilegal. Outra parte, paranóica que fazia com que as críticas à sua pessoa ou à sua política se transformassem em verdadeira ameaça à nação ou atos de deslealdade. Um exemplo foram as críticas à guerra do Vietnan.
De qualquer forma, a parte messiânica – que mostrava extrema vaidade – pode ter sido responsável pela ordem que deu para a instalação na Casa Branca de um sistema para gravar automaticamente todas as conversas que se efetuassem em determinados locais do prédio, incluindo a sala oval. Foram as fitas requisitadas pela Justiça que se transformaram na melhor prova contra Nixon. Foi substituído pelo vice Gerald Ford, que assinou uma anistia, retirando-lhe as devidas responsabilidades legais perante qualquer infração que tivesse cometido.
Durante a investigação oficial que se segue são apreendidas fitas gravadas que demonstram que o presidente tinha conhecimento das operações ilegais contra a oposição. Em 9 de Agosto de 1974, quando várias provas já ligavam os atos de espionagem ao Partido Republicano, Nixon renunciou à presidência. Foi substituído pelo vice Gerald Ford, que assinou uma amnistia, retirando-lhe as devidas responsabilidades legais perante qualquer infração que tivesse cometido.
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